quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ética das Virtudes



A chamada ética das virtudes pode remontar até Aristóteles onde na sua Ética a Nicómaco se pergunta. “Em que consiste o bem para o homem?”Ao que se responde: ”Uma actividade da alma em conformidade com a virtude.” Aristóteles entendia que o bem próprio do homem é a inteligência e como tal este deve viver em conformidade com a razão, pois através dela chega-se às virtudes, sendo a sabedoria a mais importante. Define a virtude como um traço de carácter manifestado no agir habitual, em oposição a manifestações ocasionais desta ou daquela virtude, é um agir que é emanado de um carácter firme e inabalável. A virtude moral é uma característica do carácter que é bom uma pessoa possuir. Várias podem ser apresentadas: benevolência, compaixão, coragem, equidade, afabilidade, generosidade, honestidade, justiça, paciência, sensatez, lealdade, tolerância etc. As virtudes são consideradas importantes pelo facto de que a pessoa virtuosa terá uma vida melhor, sendo necessárias para orientarmos bem as nossas vidas. Pese embora todas as vantagens que esta ética possa oferecer levanta, no entanto, algumas questões ao nível da sua fundamentação, que pode oscilar entre o egoísmo ético e o utilitarismo por um lado ou o contratualismo por outro.

As ideias aristotélicas foram-se desvanecendo com o advento do cristianismo, atendendo que a razão deixou de ser o caminho para uma vida virtuosa pois esta agora provinha do cumprimento dos mandamentos divinos. Mais tarde a modernidade começou a apresentar uma moral secularizada sem no entanto fazer um retorno ao pensamento grego, mas substituindo a lei divina pela sua versão secular, a lei moral. Só recentemente alguns filósofos teorizaram um retorno às ideias aristotélicas, nomeadamente Elizabeth Anscombe em 1958, tendo a teoria das virtudes ganho muita simpatia na filosofia moral contemporânea. Cumpre, no entanto, referir que esta teoria ainda se encontra numa fase muito inicial, não existindo um corpo doutrinal relativamente ao qual os vários pensadores se revejam, há contudo um conjunto comum de preocupações que motivam esta abordagem.


Os imperativos categóricos de kant




"Um imperativo categórico (incondicional) é aquele que representa uma acção como objectivamente necessária e a torna necessária não indiretamente através da representação de algum fim que pode ser atingido pela acção, mas da mera representação dessa própria acção (sua forma) e, por conseguinte, directamente." (KANT, 2003:65)





1º imperativo (1ª formulação)


"Age de tal modo que a máxima da tua acção se possa tornar princípio de uma legislação universal."


Kant expõe quatro exemplos para demonstrar a validade deste imperativo categórico:


1) mesmo que uma pessoa desesperada deseje suicidar-se, destruir a própria vida não pode constituir uma máxima que se queira aplicar como lei universal da natureza, já que vai contra qualquer princípio de conservação da vida.


2) uma pessoa se vê forçada, por necessidade, a pedir dinheiro emprestado, porém sabe que não poderá devolver o empréstimo, e assim mesmo promete fazê-lo num prazo determinado. Tal máxima não pode, no entanto, tornar-se lei universal, posto que ninguém mais acraditaria em qualquer promessa. Nem mesmo o devedor desejaria semelhante lei, que faria inviável qualquer novo pedido de empréstimo.


3) uma terceira pessoa, sabendo que porta talentos ainda não cultivados, vive o seguinte dilema: desenvolver seus dons ou continuar na vida ociosa, dispensando tais habilidades. Opta pelo ócio. Contudo, ela não pode querer, na condição de ser racional, que essa máxima venha a ser lei universal da natureza, posto que os talentos trariam a ela – o mesmo se aplica às demais pessoas – novas possibilidades de melhoria de vida.


4) alguém que vive na prosperidade e ao mesmo tempo vê os outros em dificuldades pode até não querer ajudá-los, mas não pode querer que tal princípio se torne lei universal da natureza – ele pode vir a precisar de auxílio também.


2º imperativo categórico (2ª formulação)



"Age por forma a que uses a humanidade, quer na tua pessoa como de qualquer outra, sempre ao mesmo tempo como fim, nunca meramente como meio".

segunda-feira, 14 de março de 2011

John Rawls - alguns pensamentos





A teoria da justiça de John Rawls

John Rawls


John Rawls, o mais conhecido e celebrado filósofo político norte-americano, falecido aos 81 anos, em 2002, é tido como o principal teórico da democracia liberal dos dias de hoje. O seu grande tratado jurídico-político A Teoria da Justiça, de 1971, alinhou-o entre os grandes pensadores sociais do século 20. Um legítimo sucessor de uma linhagem ideológica com origem em Locke.



Problema

Há crianças vendidas por pais extremamente pobres a quem tem dinheiro e falta de escrúpulos para as comprar; pessoas cujo rendimento não permite fazer mais do que uma refeição por dia; jovens que não têm a menor possibilidade de adquirir pelo menos a escolaridade básica; cidadãos que estão presos por terem defendido as suas ideias. Perante casos destes sentimos que as nossas intuições morais de justiça e igualdade não são respeitadas. Surge assim a pergunta: Como é possível uma sociedade justa? Este problema pode ter formulações mais precisas. Uma delas é a seguinte: Como deve uma sociedade distribuir os seus bens? Qual é a maneira eticamente correcta de o fazer? Trata-se do problema da justiça distributiva. A pergunta que o formula é a seguinte: Quais são os princípios mais gerais que regulam a justiça distributiva? A teoria da justiça de John Rawls é a resposta mais influente a este problema. Esta lição irá sujeitar à tua avaliação crítica os argumentos em que se apoia e algumas objecções que enfrenta.

Teoria

A teoria de Rawls constitui, em grande parte, uma reacção ao utilitarismo clássico. De acordo com esta teoria, se uma acção maximiza a felicidade, não importa se a felicidade é distribuída de maneira igual ou desigual. Grandes desníveis entre ricos e pobres parecem em princípio justificados. Mas na prática o utilitarismo prefere uma distribuição mais igual. Assim, se uma família ganha 5 mil euros por mês e outra 500, o bem-estar da família rica não diminuirá se 500 euros do seu rendimento forem transferidos para a família pobre, mas o bem-estar desta última aumentará substancialmente. Isto compreende-se porque, a partir de certa altura, a utilidade marginal do dinheiro diminui à medida que este aumenta. (Chama-se "utilidade marginal" ao benefício comparativo que se obtém de algo, por oposição ao benefício bruto: achar uma nota de 100 euros representa menos benefício para quem ganha 20 mil euros por mês do que para quem ganha apenas 500 euros por mês.) Deste modo, uma determinada quantidade de riqueza produzirá mais felicidade do que infelicidade se for retirada dos ricos para dar aos pobres. Tudo isto parece muito sensato, mas deixa Rawls insatisfeito. Ainda que o utilitarismo conduza a juízos correctos acerca da igualdade, Rawls pensa que o utilitarismo comete o erro de não atribuir valor intrínseco à igualdade, mas apenas valor instrumental. Isto quer dizer que a igualdade não é boa em si — é boa apenas porque produz a maior felicidade total.

Por consequência, o ponto de partida de Rawls terá de ser bastante diferente. Rawls parte então de uma concepção geral de justiça que se baseia na seguinte ideia: todos os bens sociais primários — liberdades, oportunidades, riqueza, rendimento e as bases sociais da auto-estima (um conceito impreciso) — devem ser distribuídos de maneira igual a menos que uma distribuição desigual de alguns ou de todos estes bens beneficie os menos favorecidos. A subtileza é que tratar as pessoas como iguais não implica remover todas as desigualdades, mas apenas aquelas que trazem desvantagens para alguém. Se dar mais dinheiro a uma pessoa do que a outra promove mais os interesses de ambas do que simplesmente dar-lhes a mesma quantidade de dinheiro, então uma consideração igualitária dos interesses não proíbe essa desigualdade. Por exemplo, pode ser preciso pagar mais dinheiro aos professores para os incentivar a estudar durante mais tempo, diminuindo assim a taxa de reprovações. As desigualdades serão proibidas se diminuírem a tua parte igual de bens sociais primários. Se aplicarmos este raciocínio aos menos favorecidos, estes ficam com a possibilidade de vetar as desigualdades que sacrificam e não promovem os seus interesses.

Mas esta concepção geral ainda não é uma teoria da justiça satisfatória. A razão é que a ideia em que se baseia não impede a existência de conflitos entre os vários bens sociais distribuídos. Por exemplo, se uma sociedade garantir um determinado rendimento a desempregados que tenham uma escolaridade baixa, criará uma desigualdade de oportunidades se ao mesmo tempo não permitir a essas pessoas a possibilidade de completarem a escolaridade básica. Há neste caso um conflito entre dois bens sociais, o rendimento e a igualdade de oportunidades. Outro exemplo é este: se uma sociedade garantir o acesso a uma determinada escolaridade a todos os seus cidadãos e ao mesmo tempo exigir que essa escolaridade seja assegurada por uma escola da área de residência, no caso de uma pessoa preferir uma escola fora da sua área de residência por ser mais competente e estimulante, gera-se um conflito entre a igualdade de oportunidades no acesso à educação e a liberdade de escolher a escola que cada um acha melhor.

Como podes ver, a concepção geral de justiça de Rawls deixa estes problemas por resolver. Será então indispensável um sistema de prioridades que justifique a opção por um dos bens em conflito. E nesse caso, se escolhemos um bem em detrimento de outro, é porque temos uma razão forte para considerar um dos bens mais prioritário do que outro. Nesse sentido, Rawls divide a sua concepção geral em três princípios:

Princípio da liberdade igual: A sociedade deve assegurar a máxima liberdade para cada pessoa compatível com uma liberdade igual para todos os outros.

Princípio da diferença: A sociedade deve promover a distribuição igual da riqueza, excepto se a existência de desigualdades económicas e sociais gerar o maior benefício para os menos favorecidos.

Princípio da oportunidade justa: As desigualdades económicas e sociais devem estar ligadas a postos e posições acessíveis a todos em condições de justa igualdade de oportunidades.

Estes três princípios formam a concepção de justiça de Rawls. Mas por si só estes princípios não resolvem conflitos como os que viste. Se queres ter uma espécie de guia nas tuas escolhas, é preciso ainda estabelecer uma ordem de prioridades entre os princípios. Assim, o princípio da liberdade igual tem prioridade sobre os outros dois e o princípio da oportunidade justa tem prioridade sobre o princípio da diferença. Atingido um nível de bem-estar acima da luta pela sobrevivência, a liberdade tem prioridade absoluta sobre o bem-estar económico ou a igualdade de oportunidades, o que faz de Rawls um liberal. A liberdade de expressão e de religião, assim como outras liberdades, são direitos que não podem ser violados por considerações económicas. Por exemplo, se já tens um rendimento mínimo que te permite viver, não podes abdicar da tua liberdade e aceitar a restrição de não poderes sair de uma exploração agrícola na condição de passares a ganhar mais. Outro exemplo que a teoria de Rawls rejeita seria o de abdicares de gozar de liberdade de expressão para um dia teres a vantagem económica de não te serem cobrados impostos.

Em cada um dos princípios mantém-se a ideia de distribuição justa. Assim, uma desigualdade de liberdade, oportunidade ou rendimento será permitida se beneficiar os menos favorecidos. Isto faz de Rawls um liberal com preocupações igualitárias. Considera mais uma vez alguns exemplos. Um sistema de ensino pode permitir aos estudantes mais dotados o acesso a maiores apoios se, por exemplo, as empresas em dificuldade vierem a beneficiar mais tarde do seu contributo, aumentando os lucros e evitando despedimentos. Outro caso permitido é o de os médicos ganharem mais do que a maioria das pessoas desde que isso permita aos médicos ter acesso a tecnologia e investigação de ponta que tornem mais eficazes os tratamentos de certas doenças e desde que, claro, esses tratamentos estejam disponíveis para os menos favorecidos.

As liberdades básicas a que Rawls dá atenção são os direitos civis e políticos reconhecidos nas democracias liberais, como a liberdade de expressão, o direito à justiça e à mobilidade, o direito de votar e de ser candidato a cargos públicos.

A parte mais disputável da teoria de Rawls é a que diz respeito à exigência de distribuição justa de recursos económicos — o que se compreende. Uma vez resolvido o problema dos direitos e liberdades básicas nas sociedades democráticas liberais, o grande problema com que estas sociedades se deparam é o de saber como devem ser distribuídos os recursos económicos — trata-se do problema da justiça distributiva. Ora, como essa exigência de distribuição justa é expressa pelo princípio da diferença, serão submetidos à tua avaliação crítica os argumentos de Rawls em defesa desse princípio.

Argumentos

Rawls apresenta dois argumentos a favor do princípio da diferença: o argumento intuitivo da igualdade de oportunidades e o argumento do contrato social hipotético.

O argumento intuitivo da igualdade de oportunidades

Este argumento apela à tua intuição de que o destino das pessoas deve depender das suas escolhas, e não das circunstâncias em que por acaso se encontram. Ninguém merece ver as suas escolhas e ambições negadas pela circunstância de pertencer a uma certa classe social ou raça. Intuitivamente não achamos plausível que uma mulher, pelo simples facto de ser mulher, encontre resistências à possibilidade de liderar um banco. Estas são circunstâncias que a igualdade de oportunidades deve eliminar. Ora, estando garantida a igualdade de oportunidades, prevalece nas sociedades actuais a ideia de que as desigualdades de rendimento são aceitáveis independentemente de os menos favorecidos beneficiarem ou não dessas desigualdades. Como ninguém é desfavorecido pelas suas circunstâncias sociais, o destino das pessoas está nas suas próprias mãos. Os sucessos e os falhanços dependem do mérito de cada um, ou da falta dele. É assim que a maioria pensa.

Mas será que esta visão dominante da igualdade de oportunidades respeita a tua intuição de que o destino das pessoas deve ser determinado pelas suas escolhas, e não pelas circunstâncias em que se encontram? Rawls pensa que não. Por esta razão: reconhecendo apenas diferenças nas circunstâncias sociais e ignorando as diferenças nos talentos naturais, a visão dominante terá de aceitar que o destino de um deficiente seja determinado pela sua deficiência ou que a infelicidade de um QI baixo dite o destino de uma pessoa. Isto impõe um limite injustificado à tua intuição. Se é injusto que o destino de cada um seja determinado por desigualdades sociais, também o será se for determinado por desigualdades naturais. Afinal, a tua intuição vê a mesma injustiça neste último caso. Logo, como as pessoas são moralmente iguais, o destino de cada um não deve depender da arbitrariedade dos acasos sociais ou naturais. E neste caso não poderás aceitar o destino do deficiente ou da pessoa com um QI baixo.

O que propõe Rawls em alternativa? Que a noção comum de igualdade de oportunidades passe a reconhecer as desigualdades naturais. Como? Dispondo a sociedade da seguinte maneira: quem ganha na "lotaria" social e natural dá a quem perde. De acordo com Rawls, ninguém deve beneficiar de forma exclusiva dos seus talentos naturais, mas não é injusto permitir tais benefícios se eles trazem vantagens para aqueles que a "lotaria" natural não favoreceu. E deste modo justificamos o princípio da diferença. Concluindo, a noção dominante de igualdade de oportunidades parte da intuição de que o destino de cada pessoa deve ser determinado pelas suas escolhas, e não pelas suas circunstâncias; mas esta mesma intuição consistentemente considerada obriga a que aquela noção passe a incluir as desigualdades naturais. O que daí resulta é precisamente o princípio da diferença. Como ninguém parece querer abdicar do pressuposto da igualdade moral entre todas as pessoas, Rawls defende que o princípio que melhor dá conta desse pressuposto é o princípio da diferença.

O argumento do contrato social hipotético

Imagina que não conheces o teu lugar na sociedade, a tua classe e estatuto social, os teus gostos pessoais e as tuas características psicológicas, a tua sorte na distribuição dos talentos naturais (como a inteligência, a força e a beleza) e que nem sequer conheces a tua concepção de bem, ignorando que coisas fazem uma vida valer a pena. Mas não és o único que se encontra nesta posição original; pelo contrário, todos estão envoltos neste véu de ignorância. Rawls afirma que esta situação hipotética descreve uma posição inicial de igualdade e nessa medida este argumento junta-se ao argumento intuitivo da igualdade de oportunidades. Ambos procuram defender a concepção de igualdade que melhor dá conta das nossas intuições de igualdade e justiça. De seguida, Rawls levanta a questão central: Que princípios de justiça seriam escolhidos por detrás deste véu de ignorância? Aqueles que as pessoas aceitariam contando que não teriam maneira de saber se seriam ou não favorecidas pelas contingências sociais ou naturais. Nessa medida, a posição original diz-nos que é razoável aceitar que ninguém deve ser favorecido ou desfavorecido.

Apesar de não sabermos qual será a nossa posição na sociedade e que objectivos teremos, há coisas que qualquer vida boa exige. Poderás ter uma vida boa como arquitecto ou poderás ter uma vida boa como mecânico e parece óbvio que estas vidas particulares serão bastante diferentes. Mas para serem ambas vidas boas há coisas que terão de estar presentes em qualquer uma delas, assim como em qualquer vida boa. A estas coisas Rawls chama bens primários. Há dois tipos de bens primários, os sociais e os naturais. Os bens primários sociais são directamente distribuídos pelas instituições sociais e incluem o rendimento e a riqueza, as oportunidades e os poderes, e os direitos e as liberdades. Os bens primários naturais são influenciados, mas não directamente distribuídos, pelas instituições sociais e incluem a saúde, a inteligência, o vigor, a imaginação e os talentos naturais. Podes achar estranho que as instituições sociais distribuam directamente rendimento e riqueza, mas segundo Rawls as empresas são instituições sociais.

Ora, sob o véu de ignorância, as pessoas querem princípios de justiça que lhes permitam ter o melhor acesso possível aos bens sociais primários. E, como não sabem que posição têm na sociedade, identificam-se com qualquer outra pessoa e imaginam-se no lugar dela. Desse modo, o que promove o bem de uma pessoa é o que promove o bem de todos e garante-se a imparcialidade. O véu de ignorância é assim um teste intuitivo de justiça: se queremos assegurar uma distribuição justa de peixe por três famílias, a pessoa que faz a distribuição não pode saber que parte terá; se queremos assegurar um jogo de futebol justo, a pessoa que estabelece as regras não pode saber se a sua equipa está a fazer um bom campeonato ou não. Imagina os seguintes padrões de distribuição de bens sociais primários em mundos só com três pessoas:

Mundo 1: 9, 8, 3;
Mundo 2: 10, 7, 2;
Mundo 3: 6, 5, 5.

Qual destes mundos garante o melhor acesso possível aos bens em questão? Lembra-te que te encontras envolto no véu de ignorância. Arriscas ou jogas pelo seguro? Tentas maximizar o melhor resultado possível ou tentas maximizar o pior resultado possível? Rawls responde que a tua intuição de justiça te conduzirá ao mundo 3. A escolha racional será essa. A estratégia de Rawls é conhecida como "maximin", dado que procura maximizar o mínimo. (Repara que a soma total de bens sociais do mundo 1 é 20, ao passo que no mundo 3 a soma total é apenas 16. Por outras palavras, o mundo 3 é menos rico do que o mundo 1, mas mais igualitário.) Nessa medida, defende que devemos escolher, de entre todos as situações possíveis, aquela em que a pessoa menos favorecida fica melhor em termos de distribuição de bens primários. É verdade que os outros dois padrões de distribuição têm uma utilidade média mais alta. (A utilidade média obtém-se somando a riqueza total e dividindo-a pelas pessoas existentes. A utilidade média do mundo 1 é 6,6 e a do mundo 3 é de apenas 5,3.) Todavia, como só tens uma vida para viver e nada sabes sobre qual será a tua posição mais provável nos outros dois padrões, a escolha do mundo 3 é mais racional e ao mesmo tempo mais compatível com as tuas intuições de igualdade e justiça. E o que diz o princípio da diferença? Diz precisamente que a sociedade deve promover a distribuição igual da riqueza, excepto as desigualdades económicas e sociais que beneficiam os menos favorecidos. Afinal, parece que nenhuma das desigualdades dos mundos 1 e 2 traz benefícios para os menos favorecidos.

Objecções

A teoria de Rawls não compensa as desigualdades naturais

A concepção comum de igualdade de oportunidades não limita a influência dos talentos naturais. Rawls tenta resolver essa falha através do princípio da diferença. Assim, os mais talentosos não merecem ter um rendimento maior e só o têm se com isso beneficiarem os menos favorecidos. Mas talvez Rawls não tenha resolvido o problema. Talvez a sua teoria da justiça deixe ainda demasiado espaço para a influência das desigualdades naturais. E nesse caso o destino das pessoas continua a ser influenciado por factores arbitrários.

Rawls define os menos favorecidos como aqueles que têm menos bens sociais primários. Imagina agora duas pessoas na mesma posição inicial de igualdade: têm as mesmas liberdades, recursos e oportunidades. Uma das pessoas tem o azar de contrair uma doença grave, crónica e incapacitante. Esta desvantagem natural implica custos na ordem dos 200 euros por mês para medicação e equipamentos. O que oferece a teoria de Rawls a esta pessoa? Como esta pessoa tem os mesmos bens sociais que a outra e os menos favorecidos são definidos em termos de bens sociais primários, a teoria de Rawls não prevê a possibilidade de a compensar. Sobre as desigualdades naturais, apenas é dito que os mais agraciados em talentos pela natureza podem ter um rendimento maior se com isso beneficiarem os menos favorecidos.

O princípio da diferença assegura os mesmos bens sociais primários a esta pessoa doente, mas não remove os encargos causados, não pelas suas escolhas, mas pela circunstância de ter contraído uma doença grave, crónica e incapacitante. A crítica à concepção dominante de igualdade de oportunidades devia ter levado Rawls ao princípio de que as desigualdades naturais, tal como as sociais, devem ser compensadas. Não se vê justificação para tratar as limitações naturais de maneira diferente das sociais. Logo, as desvantagens naturais devem ser compensadas (equipamento, transportes, medicina e formação profissional subsidiadas). A teoria de Rawls enfrenta a objecção de não reconhecer como desejável a tentativa de compensação destas desvantagens.

Fontes:

http://criticanarede.com/pol_justica.html

Dicionário Escolar de Filosofia, Org. Aires Almeida, Plátano, 2003 (Alvaro Nunes)


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os 3 tipos de acção 2º Kant

OS TRÊS TIPOS DE ACÇÃO

Um comerciante pode
praticar um preço injusto, incorrecto,
ou
praticar um preço justo, correcto.

No primeiro caso é evidente que a sua acção é imoral, é injusta é uma acção má – sem valor moral.

Mas praticando o preço justo, correcto, a sua acção é necessariamente BOA, tem valor moral? Ou seja, basta a sua acção ser correcta ou justa para ser BOA ou ter valor moral?
NÃO. Porquê?

Porque temos 3 tipos de acção:
1) acção contra o dever: é o que acontece quando o comerciante explora os clientes, praticando preços abusivos. São acções que estão em contradição com o dever são, neste sentido, destituídas de valor moral. = IMORAL E ILEGAL
2) acção conforme ao dever: é o caso do comerciante que não vende os produtos mais caros para não sofrer as consequências, podia ser prejudicado posteriormente. Esta acção também não tem valor moral porque ela não passa de um meio para o comerciante obter um determinado fim, exterior à acção. Neste caso o comerciante não agiu unicamente por obediência ao dever, apenas agiu de acordo ou em conformidade com a lei permanecendo no plano da legalidade. Agiu por interesse pessoal. =IMORAL E LEGAL
3) acção por respeito ao dever: a moralidade exige que se actue unicamente por respeito à lei moral, por dever. É o caso do comerciante que não vende caro porque sabe que esse é o seu dever. só assim cumpre a lei moral que a sua razão criou. = MORAL E LEGAL

Para Kant estas são as verdadeiras acções morais, pois o valor reside na intenção que conduz à acção.

Sendo praticadas por respeito ao dever, a acção constitui um fim em si mesmo e não um meio para obter uma recompensa (exterior e consequência posterior).Isto significa que o homem só age bem se actuar por dever. E agir por dever é agir por respeito à lei moral e não por submissão às consequências ou ao fim a atingir.

domingo, 24 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"Truman Show" Vs "Alegoria da Caverna"

Título Original: The Truman Show


Género: Drama



Origem/Ano: EUA/1998

Duração: 103 min

Direcção: Peter Weir

Elenco:

Jim Carrey...
Laura Linney...
Noah Emmerich...
Natascha McElhone...
Holland Taylor...
Brian Delate...
Blair Slater...
Peter Krause...
Heidi Schanz...
Ron Taylor...
Don Taylor...
Ted Raymond...
Judy Clayton...
Fritz Dominique...
Angel Schmiedt...

Sinopse: O vendedor de seguros Truman Burbank (Jim Carrey) vive em Seaheaven, um paraíso terrestre onde todos parecem conviver em perfeita harmonia. Mas o seu casamento com Meryl (Laura Linney) não anda muito bem e, para piorar, ele sente-se constantemente vigiado.

Decidido a investigar se realmente o estão espionando, Truman começa a perceber uma série de situações estranhas que aguçam ainda mais suas dúvidas e levam-no à descoberta: sua vida é um show de tv.

Abandonado pelos pais ainda bebé, Truman é adoptado por uma rede de televisão que o cria num mundo irreal: a cidade onde vive é um imenso cenário, a sua esposa, amigos, vizinhos, são todos actores contratados. A sua vida é uma farsa, acompanhada por milhares de telespectadores.

A partir de então a sua luta é para libertar-se e poder viver verdadeiramente.




Alguns dos elementos do filme “Show de Truman” que revelam o paralelo entre a obra de cinema e o mito Platónico:


1. A “Caverna das Aparências” de Platão funciona como um cativeiro, e os prisioneiros que habitam no seu interior, acreditam que as sombras que vêem projectadas dentro dela são a realidade (os prisioneiros vivem enganados por um processo de ilusão que os levam a tomar o falso como verdadeiro).
A ilha de Seaheaven é um grande cenário (um mundo falso) que também funciona como um cativeiro para o protagonista do filme Truman Burbank, que vive a sua vida dentro dela sem saber que é o astro de reality show exibido numa rede de televisão.


2. Os prisioneiros do mito da caverna estão algemados, estas algemas representam os pré-conceitos e pré-juízos das pessoas comuns. O pensamento irreflectido do dia a dia (do quotidiano).
O que prende Truman Burbank na ilha, é a rotina (seu quotidiano) e todas as estratégias subjectivas pensadas e aplicadas pelos mentores do reality show para torná-lo uma pessoa passiva, alienada e conformista.


3. Um dos prisioneiros da caverna torna-se um sujeito questionador e a partir daí percorre um doloroso caminho para fora da caverna.
Truman também começa a questionar o mundo à sua volta e a partir daí percorre um árduo e doloroso caminho para sair da ilha e conhecer o mundo real.


4. Nos dois casos sair da ilha é um risco, é perigoso. Ambos os personagens arriscam a vida nas narrativas, Truman para conseguir sair da ilha e o prisioneiro da caverna ao retornar para libertar os seus amigos de cativeiro.


5. Ambos os personagens buscam o caminho do novo, motivados por um desejo de saber para além do que conhecem.


Excerto do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=jc_isjiVLs8

http://www.webcine.com.br/filmessi/truman.htm


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"O Mundo de Sofia" - Uma introdução à Filosofia


Para todos aqueles que se iniciam agora na Filosofia, esta é uma execelente obra de "arranque".

Disponivel neste site

http://livrosgeneros.blogspot.com/2008/06/jostein-gaarder-o-mundo-de-sofia.html

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ética

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ética e Moral

Ambos os termos, Ética e Moral, referem-se aos mesmos conteúdos, tendo a ética partido da etimologia grega e a moral do latim. No entanto, é preciso fazer uma apreciação etimológica mais aprofundada.
De facto, constata-se que o termo “ética” tem a sua origem no termo grego ethos, sendo que este apresentava duas grafias ligeiramente distintas, êthos e éthos. Êthos inicialmente designava o lugar onde se guardavam os animais e posteriormente evoluiu para o lugar de onde brotam os actos, ou seja a interioridade dos homens, o seu carácter. Éthos significava o hábito, referindo-se ao agir habitual.
Quando foi feita a tradução para o latim do ethos os dois significados foram integrados no termo “hábito”, prevalecendo portanto a significação do éthos, e que se diz “mos” (com “moris” no genitivo), dando posteriormente origem ao termo “moral”. Neste processo foi-se consolidando uma distinção entre o êthos grego e o mores latino, salientando, o primeiro, a interioridade do homem de onde provêm os seus actos e o segundo referindo-se ao aspecto repetitivo dos actos humanos. No seguimento deste raciocínio podemos atribuir à ética a procura daquilo que é o aspecto mais pessoal do agir humano, o aspecto reflexivo, a sua fundamentação. A ética busca deste modo a fundamentação do agir, enquanto a moral se debruça sobre o modo como as leis morais se hierarquizam, se aplicam nos casos concretos, tendo em conta a liberdade de decisão e o recurso a valores.
A ética apresenta, assim, um carácter mais descritivo, enquanto procura de fundamentação, enquanto que a moral tem um pendor mais prescritivo.

adaptado de
http://www.eticus.com/saibamais.php?sp=4

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Racismo, xenofobia e Chauvinismo

Racismo:

A palavra racismo tem origem na junção de dois termos: raça e “ismo”, sendo raça a palavra mãe.

Racismo = Raça + “ismo”

Para percebermos o significado da palavra racismo temos de entender o que significa realmente a palavra raça.

Raça é o grupo de indivíduos pertencentes a um tronco comum e que apresentam particularidades análogas entre os membros da mesma espécie.

A palavra raça teve origem no latim, de ratio, que significa espécie.

Assim, racismo, não é mais do que uma teoria que afirma a superioridade da raça X ou Y em relação às outras raças. Nesta teoria assenta a defesa do direito de dominar ou mesmo reprimir as raças consideradas inferiores.

O racismo é, pois, uma atitude preconceituosa e discriminatória contra indivíduos de certas raças ou etnias.

Xenofobia:

A palavra xenofobia, tal como a palavra racismo, advém da junção de dois termos: xeno e fobia.

A palavra xeno esta relacionada com a formação de palavras que exprime a ideia de estrangeiro ou estranho.

Fobia é o medo patológico, aversão impossível de conter.

Xenofobia = Xeno + Fobia

Assim, podemos entender a xenofobia como a antipatia ou aversão pelas pessoas ou coisas estrangeiras. Esta pode ser característica de um nacionalismo excessivo. Xenofobia é também um distúrbio psiquiátrico ao medo excessivo e descontrolado ao desconhecido ou diferente.

Xenofobia é um termo também usado num sentido amplo (amplamente usado mas muito debatido) referindo-se a qualquer forma de preconceito, racial, de grupos minoritários ou cultural.

Chauvinismo:

O termo chauvinismo teve origem em França, devido a Nicolas Chauvin, um soldado de Napoleão que se tornou um patriota fanático.

O chauvinismo é isso mesmo, um patriotismo exagerado, um amor exaltado à pátria, um sentimento de nacionalismo exacerbado.

Valores

Caracterização dos valores
• Os valores só têm existência no seio de uma dada cultura ou comunidade;
• Os valores situam-se na ordem do ideal e não dos objectos concretos ou dos acontecimentos;
• Os valores manifestam-se de forma real, nas condutas e nas coisas que os exprimem simbolicamente;
• Os valores não são coisas mas qualidades das coisas, não estão nelas de modo real e sensível;
• O modo de ser dos valores é o valer – o modo como cada membro de uma cultura valoriza as coisas;
• Os valores têm matéria, polaridade e hierarquia, universalidade ou relatividade.
• A matéria dos valores é o que distingue os valores uns dos outros;
• Polaridade diz respeito ao facto de os valores terem sempre um pólo positivo e negativo;
• A hierarquia implica que haja valores que se subordinem a outros – uns valem mais;
• Relatividade/universalidade, diz respeito ao facto de os valores serem próprios de uma sociedade, a qual tem sempre os seus valores, ideais, …


Tipos de valores
• Valores Éticos ou do bem moral – referem-se às normas ou critérios de conduta que afectam todas as áreas da nossas actividade;
• Valores Estéticos – valores que expressam o belo, o feio, o sublime, o trágico;
• Valores Religiosos – são os que dizem respeito à relação do homem com a transcendência;
• Valores Políticos - igualdade, justiça, imparcialidade, cidadania, liberdade;
• Valores Vitais – saúde, força

Facto e Valor
• Facto – é um acontecimento considerado objectivo, a realidade, em oposição a palavras, ideias, teorias, etc.. Os factos podem ser verificados e qualquer afirmação sobre eles pode ser verdadeira ou falsa.
• Valor – é uma qualidade que atribuímos às coisas, situações ou pessoas. Resultam de uma escolha em função da atitude, da cultura e da educação de cada pessoa. São subjectivos e relativos.

Divergência de posições
• Os que defendem a separação radical entre facto e valor
• Os que defendem que o normativo e o factual se encontram numa relação mútua

Historicidade e perenidade dos valores
• Objectivismo axiológico : Os objectos valem por si mesmos, independentemente do sujeito.
• Subjectivismo axiológico: O valor do objecto depende do modo como a sua presença afecta o sujeito

Qual a perspectiva correcta?
• Os valores não se reduzem às vivências do sujeito que avalia, nem existem em si. Os valores existem para um sujeito, entendido não apenas como mero indivíduo, mas como ser social.
• É o homem, enquanto ser histórico-social, com a sua atitude prática que cria os valores. O indivíduo encontra-se determinado por uma cultura, da qual se alimenta espiritualmente. A sua apreciação das coisas, os seus juízos de valor conformam-se com as regras, critérios e valores que nem inventa nem descobre pessoalmente, antes têm uma significação pessoal.
• Os valores são criações humanas, existem unicamente num mundo social, para o homem e pelo homem.
• Resultam de apreciações interiores, organizadas hierarquicamente numa escala de preferências individuais e sociais, em função da qual pautamos o nosso comportamento.
• O homem e a vida mudam, logo os valores também mudam – a historicidade é própria do homem, mas também dos valores.

Considerações finais:
1) Não existem valores em si, como entes ideais ou reais, mas objectos reais (ou bens) que possuem valor.
2) Uma vez que os valores não constituem um mundo de objectos que exista independentemente do mundo dos objectos reais, só se dão na realidade - natural e humana - como propriedades valiosas desta realidade.
3) Os valores requerem, por conseguinte - como condição necessária - a existência de certas propriedades reais - naturais ou físicas - que constituem o suporte necessário das propriedades que consideramos valiosas.
4) As propriedades reais sustentam o valor, e sem as quais não se daria este, só são valiosas potencialmente. Para se actualizarem e se converterem em propriedades valiosas efectivas, é indispensável que o objecto se encontre em relação com o homem social, com os seus interesses ou necessidades. Deste modo, o que só vale potencialmente adquire um valor efectivo.


Valores universais
• Pessoa
• Dignidade humana
• Liberdade
• Solidariedade
• Igualdade
• Valores e cultura: universalidade ou relatividade

Tendo a diversidade cultural subjacente a diversidade dos valores, estaremos condenados ao relativismo dos valores?

A crise de valores
• Vivemos ou não uma crise de valores?
• Segundo alguns, assistimos a uma decadência dos valores tradicionais.
• Para outros trata-se apenas de uma transformação dos valores, devida às próprias mutações económicas e sociais exigidas pelo ritmo da vida moderna.

O que se defende?
• A crise/morte de alguns valores não significa ausência de valores, antes pressupõe que novos valores nasçam, ainda que outros permaneçam: amizade, amor, generosidade, honestidade, justiça, liberdade…
• O desenvolvimento científico e tecnológico implicou o alargamento da reflexão em torno do campo dos valores;
• A influência da ciência, do racionalismo técnico e da tecnologia permitem ao homem um domínio acentuado sobre a natureza;
• A técnica satisfaz não só as necessidades humanas, mas cria sobretudo novas necessidades de consumo, contribuindo para acentuar a crise de valores tradicionais, se atendermos à mudança de mentalidades.

domingo, 20 de dezembro de 2009

A importância do caminho

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dia Internacional da Filosofia - 19 de Novembro

Hoje é o dia Internacional da Filosofia.

Recorda-nos a importância do questionamento filosófico e sublinha a importância do diálogo conduzindo-nos para a compreensão de um bem comum e maior: a humanidade.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Liberdade VS Determinismo



Livre-arbítrio: «capacidade de tomarmos (pelo menos algumas) decisões de modo realmente independente.»




Problema do livre-arbítrio: Será que somos livres? Será que decisões e acções são livres? Os filósofos Libertistas dizem que sim. Os filósofos Deterministas dizem que não.


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Tese libertista: “O ser humano possui capacidade para decidir de modo independente.” “Possuímos livre-arbítrio.” “O determinismo é falso.”




Tese determinista: “O ser humano não possui capacidade para decidir de modo independente.” “Não possuímos livre-arbítrio.” “O libertismo é falso.” “Todas as decisões humanas são determinadas por causas, tal como os outros fenómenos naturais.”




Libertismo: argumento da “experiência liberdade” (sentimos na 1º pessoa que somos livres)




Determinismo: argumento da causalidade universal




A causalidade abrange todos os acontecimentos, incluindo as decisões humanas




Todos os fenómenos naturais obedecem às leis da física, química, etc.


Todos os fenómenos mentais (pensamentos, decisões, etc.) são fenómenos naturais (impulsos electroquímicos entre os neurónios.)


Logo os fenómenos mentais obedecem às leis da física, química, etc.



Se os fenómenos mentais obedecem às leis da científica, então são causados, determinados tal como outros fenómenos naturais (por ex., a chuva)


Se são determinados, então não existem fenómenos mentais independentes.Logo todas as nossas decisões são determinadas, isto é, não são livres ou independentes.Se tudo tem uma causa, então as nossas decisões também têm.




Responsabilidade e o problema do livre arbítrio:


Se entendermos o conceito responsabilidade como a obrigação moral de escolher uma de várias possibilidades, então o determinismo é incompatível com a responsabilidade. Isto porque se o mundo for determinista eu nunca poderia ter escolhido outra alternativa diferente daquela que efectivamente escolhi. Mas se entendermos o conceito de responsabilidade apenas como o reconhecimento da autoria do determinado acto, então o determinismo é compatível com a responsabilidade. O sujeito não escolhe a acção, mas pratica-a, isto é, é o sujeito físico que executa determinado comportamento.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Seremos Livres?

«Vou contar-te um caso dramático. Já ouviste falar das térmitas, essas formigas brancas que, em África, constroem formigueiros impressionantes, com vários metros de altura e duros como pedra. Uma vez que o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quinina que protege os outros insectos, o formigueiro serve-lhes de carapaça colectiva contra certas formigas inimigas, mais bem armadas do que elas. Mas por vezes um dos formigueiros é derrubado, por causa duma cheia ou de um elefante (os elefantes, que havemos nós de fazer, gostam de coçar os flancos nas termiteiras). A seguir as térmitas-operário começam a trabalhar para reconstruir a fortaleza afectada, e fazem-no com toda a pressa. Entretanto, já as grandes formigas inimigas se lançam ao assalto. As térmitas soldado saem em defesa da sua tribo e tentam deter as inimigas. Como nem no tamanho nem no armamento podem competir com elas, penduram-se nas assaltantes tentando travar o mais possível o seu avanço, enquanto ferozes mandíbulas invasoras as vão despedaçando. As operárias trabalham com toda a velocidade e esforçam-se por fechar de novo a termiteira derrubada…mas fecham-na deixando de fora as pobres e heróicas térmitas-soldado, que sacrificam as suas vidas pela segurança das restantes formigas. Não merecerão estas formigas pelo menos uma medalha? Não será justo dizer que são valentes?

Mudo agora de cenário, mas não de assunto. Na Ilíada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que espera a pé firme, fora das muralhas da sua cidade, Aquiles, o enfurecido campeão dos Aqueus, embora sabendo que Aquiles é mais forte e que ele provavelmente vai matá-lo. Fá-lo para cumprir o seu dever, que consiste em defender a família e os concidadãos do terrível assaltante. Ninguém tem dúvidas: Heitor é um herói, um homem valente como deve ser. Mas será Heitor heróico e valente da mesma maneira que as térmitas-soldado, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero se deu ao trabalho de contar? Não faz Heitor, afinal de contas, a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anónimas? Porque nos parece o seu valor mais autêntico e mais difícil do que o dos insectos? Qual é a diferença entre um e outro caso?

Muito simplesmente, a diferença assenta no facto das térmita-soldado lutarem e morrerem porque têm que o fazer, sem que possam evitá-lo (como a aranha come a mosca). Heitor, por seu lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas-soldado não podem desertar, nem revoltar-se, nem fazer cera para que as outras vão em seu lugar: estão programadas necessariamente pela Natureza para cumprirem a sua heróica missão. O caso de Heitor é distinto. Poderia dizer que está doente, ou que não tem vontade de se bater com alguém mais forte do que ele. Talvez os seus concidadãos lhe chamassem cobarde e o considerassem insensível ou talvez lhe perguntassem que outro plano via ele para deter Aquiles, mas é indubitável que Heitor tem a possibilidade de se recusar a ser herói. Por muita pressão que os restantes exercessem sobre ele, ele teria sempre maneira de escapar daquilo que se supõe que deve fazer: não está programado para ser herói, nem o está seja que homem for. Daí que o seu gesto tenha mérito e que Homero nos conte a sua história com uma emoção épica. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre e por isso admiramos a sua coragem.»

Fernando Savater, Ética para um jovem, Ed. Presença, Lisboa, pp. 21-22

Seremos todos imbecis?

“Sabes qual é a única obrigação que temos nesta vida? Pois é a de não sermos imbecis. A palavra “imbecil” é mais densa do que parece, não duvides. Vem do latim baculus, que significa bastão: o imbecil é o que precisa de um bastão ou bengala para andar. Que não se zanguem connosco os coxos nem os velhos, porque a bengala a que nos referimos não é a que muito legitimamente se usa para ajudar a sustentar-se e a andar um corpo enfraquecido por algum acidente ou pela idade. O imbecil pode ser tão ágil quanto se queira e dar saltos como uma gazela olímpica, não é disso que se trata. Se o imbecil coxeia não é dos pés, mas do espírito: é o seu espírito que é enfermiço e manco, embora o seu corpo possa dar cambalhotas de primeira. Há imbecis de diversos modelos, à escolha:
a) O que acredito que não quer nada, o que diz que para ele é tudo igual, o que vive num perpétuo bocejo ou numa sesta permanente, mesmo que tenha os olhos abertos e não ressone.
b) O que acredita que quer tudo, a primeira coisa que lhe aparece e o contrário do que lhe aparece: ir-se embora e ficar, dançar e estar sentado, mascar dentes de alho e dar beijos sublimes, tudo ao mesmo tempo.
c) O que não sabe o que quer nem se dá ao trabalho de o averiguar. Imita os quereres dos seus vizinhos ou contraria-os porque sim, tudo o que faz lhe é ditado pela opinião maioritária daqueles que o rodeiam: é conformista sem reflexão ou revoltado sem causa.
d) O que sabe que quer e sabe o que quer e, mais ou menos, sabe porque é que o quer, mas quer pouco, com medo ou sem força. Acaba sempre por fazer, bem vistas as coisas, o que não quer, deixando o que quer para amanhã, pois talvez amanhã esteja mais bem disposto.
e) O que quer com força e ferocidade, em estilo bárbaro, mas se enganou a si próprio acerca do que é a realidade; despista-se em grande e acaba por confundir a vida boa com aquilo que o há-de tornar pó.
(...)
O contrário de se ser moralmente imbecil é ter-se consciência. (…) Em que consiste essa consciência que nos curará da imbecilidade moral? Fundamentalmente nos traços seguintes:

a) Saber que nem tudo vem a dar ao mesmo porque queremos realmente viver e, além disso, viver bem, humanamente bem.
b) Estarmos dispostos a prestar atenção para vermos se aquilo que fazemos corresponde ou não ao que deveras queremos.
c) À base de prática, irmos desenvolvendo o bom gosto moral, de tal modo que haja certas coisas que nos repugne espontaneamente fazer (por exemplo, temos «nojo» de mentir como temos em geral nojo de mijar na terrina da sopa que vamos comer a seguir…).
d) Renunciarmos a procurar argumentos que dissimulem o facto de sermos livres e portanto razoavelmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos.
Fernando Savater, Ética para um Jovem

Fernando Savater

Fernando Savater nasceu em San Sebastián em 1947. Catedrático de Ética na Universidade Complutense de Madrid, é autor de uma vasta obra que abarca o ensaio, a narrativa e o teatro. Entre outros galardões, recebeu o Prémio Francisco Cerecedo da Associação de Jornalistas Europeus e o Prémio Sakharov de Direitos Humanos. Fernando Savater é um dos pensadores mais destacados de Espanha e tem vindo a ganhar grande popularidade no mundo inteiro.

Estamos condenados à liberdade?

(...)um barco transporta uma carga importante de um porto para outro. A meio do trajecto, surpreende-o uma tempestade tremenda. Parece então que a única forma de salvar o barco e a tripulação é lançar borda fora a carga, que embora importante pesa muito. Ao capitão do navio coloca-se o seguinte problema: "Devo deitar fora a mercadoria ou arriscar-me a enfrentar o temporal conservando-a a bordo, esperando que o tempo melhore ou que a embarcação resista?" A partir daqui, se lança a carga ao mar, fá-lo-á porque prefere fazer isso a desafiar o perigo, mas seria injusto dizermos sem mais que a quer lançar ao mar. O que ele deveras quer é chegar ao seu destino, com o navio, a tripulação e a mercadoria; é isso o que mais lhe convém. Contudo, dadas as circunstâncias tormentosas, prefere salvar a sua vida e a da tripulação a salvar a carga, por mais preciosa que seja. Oxalá não tivesse rebentado a maldita borrasca! Mas a borrasca é algo que ele não pode escolher, é uma coisa que lhe foi imposta, uma coisa que lhe aconteceu, queira ele ou não; o que em contrapartida pode escolher é o comportamento a seguir no perigo que o ameaça. Se lança a carga borda fora, fá-lo-á porque o quer... e ao mesmo tempo sem o querer. Quer viver, salvar-se e salvar os homens que dependem dele, salvar o seu barco; mas não quer ficar sem a carga nem sem o ganho que ela representa, pelo que só muito a contragosto se separará dela. Preferiria sem dúvida não se ver no passo de ter que escolher entre a perda dos bens e a perda da sua vida. Todavia, não pode evitá-lo e tem de decidir-se: escolherá o que quiser mais, o que julga mais conveniente. Poderíamos dizer que é livre porque não pode evitar sê-lo, livre de escolher em circunstâncias que não escolheu sofrer.
(Fernando SAVATER - Ética para um jovem, 3ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1995, pp. 29-30)

1. Justifique se considera verdadeira/falsa cada uma das afirmações seguintes:

a) Fernando Savater defende que o Homem é livre, porque pode agir sem quaisquer condicionalismos
b) O autor do texto defende o determinismo
c) O autor do texto defende que o Homem está obrigado a ser livre, porque tem que escolher, apesar de não poder escolher tudo.
2. Concorda com a tese do autor? Argumente a favor da sua posição.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Filosofia Prática

«Considero que um tema ético importante é aquele que toda a pessoa que pensa um pouco tem de enfrentar. (...) Quais são as nossas responsabilidades pessoais para com os pobres? Teremos alguma justificação para tratar os animais como se não passassem de máquinas que produzem carne para a nossa alimentação? Será legítimo usarmos papel nao reciclado? E, em todo o caso, porque nos havemos de preocupar em agir de acordo com princípios morais? Outros problemas, como o aborto e a eutanásia, não representam felizmente decisões quotidianas que a maior parte de nós tenha de tomar; mas são problemas que podem surgir na nossa vida a qualquer momento. São temas de preocupação actual sobre os quais todas as pessoas que participam no processo de tomada de decisões da nossa soiedade precisam de reflectir.»


Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Filosofia Aberta, Lisboa, Setembro 2002