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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ética das Virtudes



A chamada ética das virtudes pode remontar até Aristóteles onde na sua Ética a Nicómaco se pergunta. “Em que consiste o bem para o homem?”Ao que se responde: ”Uma actividade da alma em conformidade com a virtude.” Aristóteles entendia que o bem próprio do homem é a inteligência e como tal este deve viver em conformidade com a razão, pois através dela chega-se às virtudes, sendo a sabedoria a mais importante. Define a virtude como um traço de carácter manifestado no agir habitual, em oposição a manifestações ocasionais desta ou daquela virtude, é um agir que é emanado de um carácter firme e inabalável. A virtude moral é uma característica do carácter que é bom uma pessoa possuir. Várias podem ser apresentadas: benevolência, compaixão, coragem, equidade, afabilidade, generosidade, honestidade, justiça, paciência, sensatez, lealdade, tolerância etc. As virtudes são consideradas importantes pelo facto de que a pessoa virtuosa terá uma vida melhor, sendo necessárias para orientarmos bem as nossas vidas. Pese embora todas as vantagens que esta ética possa oferecer levanta, no entanto, algumas questões ao nível da sua fundamentação, que pode oscilar entre o egoísmo ético e o utilitarismo por um lado ou o contratualismo por outro.

As ideias aristotélicas foram-se desvanecendo com o advento do cristianismo, atendendo que a razão deixou de ser o caminho para uma vida virtuosa pois esta agora provinha do cumprimento dos mandamentos divinos. Mais tarde a modernidade começou a apresentar uma moral secularizada sem no entanto fazer um retorno ao pensamento grego, mas substituindo a lei divina pela sua versão secular, a lei moral. Só recentemente alguns filósofos teorizaram um retorno às ideias aristotélicas, nomeadamente Elizabeth Anscombe em 1958, tendo a teoria das virtudes ganho muita simpatia na filosofia moral contemporânea. Cumpre, no entanto, referir que esta teoria ainda se encontra numa fase muito inicial, não existindo um corpo doutrinal relativamente ao qual os vários pensadores se revejam, há contudo um conjunto comum de preocupações que motivam esta abordagem.


Os imperativos categóricos de kant




"Um imperativo categórico (incondicional) é aquele que representa uma acção como objectivamente necessária e a torna necessária não indiretamente através da representação de algum fim que pode ser atingido pela acção, mas da mera representação dessa própria acção (sua forma) e, por conseguinte, directamente." (KANT, 2003:65)





1º imperativo (1ª formulação)


"Age de tal modo que a máxima da tua acção se possa tornar princípio de uma legislação universal."


Kant expõe quatro exemplos para demonstrar a validade deste imperativo categórico:


1) mesmo que uma pessoa desesperada deseje suicidar-se, destruir a própria vida não pode constituir uma máxima que se queira aplicar como lei universal da natureza, já que vai contra qualquer princípio de conservação da vida.


2) uma pessoa se vê forçada, por necessidade, a pedir dinheiro emprestado, porém sabe que não poderá devolver o empréstimo, e assim mesmo promete fazê-lo num prazo determinado. Tal máxima não pode, no entanto, tornar-se lei universal, posto que ninguém mais acraditaria em qualquer promessa. Nem mesmo o devedor desejaria semelhante lei, que faria inviável qualquer novo pedido de empréstimo.


3) uma terceira pessoa, sabendo que porta talentos ainda não cultivados, vive o seguinte dilema: desenvolver seus dons ou continuar na vida ociosa, dispensando tais habilidades. Opta pelo ócio. Contudo, ela não pode querer, na condição de ser racional, que essa máxima venha a ser lei universal da natureza, posto que os talentos trariam a ela – o mesmo se aplica às demais pessoas – novas possibilidades de melhoria de vida.


4) alguém que vive na prosperidade e ao mesmo tempo vê os outros em dificuldades pode até não querer ajudá-los, mas não pode querer que tal princípio se torne lei universal da natureza – ele pode vir a precisar de auxílio também.


2º imperativo categórico (2ª formulação)



"Age por forma a que uses a humanidade, quer na tua pessoa como de qualquer outra, sempre ao mesmo tempo como fim, nunca meramente como meio".

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os 3 tipos de acção 2º Kant

OS TRÊS TIPOS DE ACÇÃO

Um comerciante pode
praticar um preço injusto, incorrecto,
ou
praticar um preço justo, correcto.

No primeiro caso é evidente que a sua acção é imoral, é injusta é uma acção má – sem valor moral.

Mas praticando o preço justo, correcto, a sua acção é necessariamente BOA, tem valor moral? Ou seja, basta a sua acção ser correcta ou justa para ser BOA ou ter valor moral?
NÃO. Porquê?

Porque temos 3 tipos de acção:
1) acção contra o dever: é o que acontece quando o comerciante explora os clientes, praticando preços abusivos. São acções que estão em contradição com o dever são, neste sentido, destituídas de valor moral. = IMORAL E ILEGAL
2) acção conforme ao dever: é o caso do comerciante que não vende os produtos mais caros para não sofrer as consequências, podia ser prejudicado posteriormente. Esta acção também não tem valor moral porque ela não passa de um meio para o comerciante obter um determinado fim, exterior à acção. Neste caso o comerciante não agiu unicamente por obediência ao dever, apenas agiu de acordo ou em conformidade com a lei permanecendo no plano da legalidade. Agiu por interesse pessoal. =IMORAL E LEGAL
3) acção por respeito ao dever: a moralidade exige que se actue unicamente por respeito à lei moral, por dever. É o caso do comerciante que não vende caro porque sabe que esse é o seu dever. só assim cumpre a lei moral que a sua razão criou. = MORAL E LEGAL

Para Kant estas são as verdadeiras acções morais, pois o valor reside na intenção que conduz à acção.

Sendo praticadas por respeito ao dever, a acção constitui um fim em si mesmo e não um meio para obter uma recompensa (exterior e consequência posterior).Isto significa que o homem só age bem se actuar por dever. E agir por dever é agir por respeito à lei moral e não por submissão às consequências ou ao fim a atingir.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ética

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ética e Moral

Ambos os termos, Ética e Moral, referem-se aos mesmos conteúdos, tendo a ética partido da etimologia grega e a moral do latim. No entanto, é preciso fazer uma apreciação etimológica mais aprofundada.
De facto, constata-se que o termo “ética” tem a sua origem no termo grego ethos, sendo que este apresentava duas grafias ligeiramente distintas, êthos e éthos. Êthos inicialmente designava o lugar onde se guardavam os animais e posteriormente evoluiu para o lugar de onde brotam os actos, ou seja a interioridade dos homens, o seu carácter. Éthos significava o hábito, referindo-se ao agir habitual.
Quando foi feita a tradução para o latim do ethos os dois significados foram integrados no termo “hábito”, prevalecendo portanto a significação do éthos, e que se diz “mos” (com “moris” no genitivo), dando posteriormente origem ao termo “moral”. Neste processo foi-se consolidando uma distinção entre o êthos grego e o mores latino, salientando, o primeiro, a interioridade do homem de onde provêm os seus actos e o segundo referindo-se ao aspecto repetitivo dos actos humanos. No seguimento deste raciocínio podemos atribuir à ética a procura daquilo que é o aspecto mais pessoal do agir humano, o aspecto reflexivo, a sua fundamentação. A ética busca deste modo a fundamentação do agir, enquanto a moral se debruça sobre o modo como as leis morais se hierarquizam, se aplicam nos casos concretos, tendo em conta a liberdade de decisão e o recurso a valores.
A ética apresenta, assim, um carácter mais descritivo, enquanto procura de fundamentação, enquanto que a moral tem um pendor mais prescritivo.

adaptado de
http://www.eticus.com/saibamais.php?sp=4

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Liberdade VS Determinismo



Livre-arbítrio: «capacidade de tomarmos (pelo menos algumas) decisões de modo realmente independente.»




Problema do livre-arbítrio: Será que somos livres? Será que decisões e acções são livres? Os filósofos Libertistas dizem que sim. Os filósofos Deterministas dizem que não.


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Tese libertista: “O ser humano possui capacidade para decidir de modo independente.” “Possuímos livre-arbítrio.” “O determinismo é falso.”




Tese determinista: “O ser humano não possui capacidade para decidir de modo independente.” “Não possuímos livre-arbítrio.” “O libertismo é falso.” “Todas as decisões humanas são determinadas por causas, tal como os outros fenómenos naturais.”




Libertismo: argumento da “experiência liberdade” (sentimos na 1º pessoa que somos livres)




Determinismo: argumento da causalidade universal




A causalidade abrange todos os acontecimentos, incluindo as decisões humanas




Todos os fenómenos naturais obedecem às leis da física, química, etc.


Todos os fenómenos mentais (pensamentos, decisões, etc.) são fenómenos naturais (impulsos electroquímicos entre os neurónios.)


Logo os fenómenos mentais obedecem às leis da física, química, etc.



Se os fenómenos mentais obedecem às leis da científica, então são causados, determinados tal como outros fenómenos naturais (por ex., a chuva)


Se são determinados, então não existem fenómenos mentais independentes.Logo todas as nossas decisões são determinadas, isto é, não são livres ou independentes.Se tudo tem uma causa, então as nossas decisões também têm.




Responsabilidade e o problema do livre arbítrio:


Se entendermos o conceito responsabilidade como a obrigação moral de escolher uma de várias possibilidades, então o determinismo é incompatível com a responsabilidade. Isto porque se o mundo for determinista eu nunca poderia ter escolhido outra alternativa diferente daquela que efectivamente escolhi. Mas se entendermos o conceito de responsabilidade apenas como o reconhecimento da autoria do determinado acto, então o determinismo é compatível com a responsabilidade. O sujeito não escolhe a acção, mas pratica-a, isto é, é o sujeito físico que executa determinado comportamento.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Seremos todos imbecis?

“Sabes qual é a única obrigação que temos nesta vida? Pois é a de não sermos imbecis. A palavra “imbecil” é mais densa do que parece, não duvides. Vem do latim baculus, que significa bastão: o imbecil é o que precisa de um bastão ou bengala para andar. Que não se zanguem connosco os coxos nem os velhos, porque a bengala a que nos referimos não é a que muito legitimamente se usa para ajudar a sustentar-se e a andar um corpo enfraquecido por algum acidente ou pela idade. O imbecil pode ser tão ágil quanto se queira e dar saltos como uma gazela olímpica, não é disso que se trata. Se o imbecil coxeia não é dos pés, mas do espírito: é o seu espírito que é enfermiço e manco, embora o seu corpo possa dar cambalhotas de primeira. Há imbecis de diversos modelos, à escolha:
a) O que acredito que não quer nada, o que diz que para ele é tudo igual, o que vive num perpétuo bocejo ou numa sesta permanente, mesmo que tenha os olhos abertos e não ressone.
b) O que acredita que quer tudo, a primeira coisa que lhe aparece e o contrário do que lhe aparece: ir-se embora e ficar, dançar e estar sentado, mascar dentes de alho e dar beijos sublimes, tudo ao mesmo tempo.
c) O que não sabe o que quer nem se dá ao trabalho de o averiguar. Imita os quereres dos seus vizinhos ou contraria-os porque sim, tudo o que faz lhe é ditado pela opinião maioritária daqueles que o rodeiam: é conformista sem reflexão ou revoltado sem causa.
d) O que sabe que quer e sabe o que quer e, mais ou menos, sabe porque é que o quer, mas quer pouco, com medo ou sem força. Acaba sempre por fazer, bem vistas as coisas, o que não quer, deixando o que quer para amanhã, pois talvez amanhã esteja mais bem disposto.
e) O que quer com força e ferocidade, em estilo bárbaro, mas se enganou a si próprio acerca do que é a realidade; despista-se em grande e acaba por confundir a vida boa com aquilo que o há-de tornar pó.
(...)
O contrário de se ser moralmente imbecil é ter-se consciência. (…) Em que consiste essa consciência que nos curará da imbecilidade moral? Fundamentalmente nos traços seguintes:

a) Saber que nem tudo vem a dar ao mesmo porque queremos realmente viver e, além disso, viver bem, humanamente bem.
b) Estarmos dispostos a prestar atenção para vermos se aquilo que fazemos corresponde ou não ao que deveras queremos.
c) À base de prática, irmos desenvolvendo o bom gosto moral, de tal modo que haja certas coisas que nos repugne espontaneamente fazer (por exemplo, temos «nojo» de mentir como temos em geral nojo de mijar na terrina da sopa que vamos comer a seguir…).
d) Renunciarmos a procurar argumentos que dissimulem o facto de sermos livres e portanto razoavelmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos.
Fernando Savater, Ética para um Jovem

Fernando Savater

Fernando Savater nasceu em San Sebastián em 1947. Catedrático de Ética na Universidade Complutense de Madrid, é autor de uma vasta obra que abarca o ensaio, a narrativa e o teatro. Entre outros galardões, recebeu o Prémio Francisco Cerecedo da Associação de Jornalistas Europeus e o Prémio Sakharov de Direitos Humanos. Fernando Savater é um dos pensadores mais destacados de Espanha e tem vindo a ganhar grande popularidade no mundo inteiro.

Estamos condenados à liberdade?

(...)um barco transporta uma carga importante de um porto para outro. A meio do trajecto, surpreende-o uma tempestade tremenda. Parece então que a única forma de salvar o barco e a tripulação é lançar borda fora a carga, que embora importante pesa muito. Ao capitão do navio coloca-se o seguinte problema: "Devo deitar fora a mercadoria ou arriscar-me a enfrentar o temporal conservando-a a bordo, esperando que o tempo melhore ou que a embarcação resista?" A partir daqui, se lança a carga ao mar, fá-lo-á porque prefere fazer isso a desafiar o perigo, mas seria injusto dizermos sem mais que a quer lançar ao mar. O que ele deveras quer é chegar ao seu destino, com o navio, a tripulação e a mercadoria; é isso o que mais lhe convém. Contudo, dadas as circunstâncias tormentosas, prefere salvar a sua vida e a da tripulação a salvar a carga, por mais preciosa que seja. Oxalá não tivesse rebentado a maldita borrasca! Mas a borrasca é algo que ele não pode escolher, é uma coisa que lhe foi imposta, uma coisa que lhe aconteceu, queira ele ou não; o que em contrapartida pode escolher é o comportamento a seguir no perigo que o ameaça. Se lança a carga borda fora, fá-lo-á porque o quer... e ao mesmo tempo sem o querer. Quer viver, salvar-se e salvar os homens que dependem dele, salvar o seu barco; mas não quer ficar sem a carga nem sem o ganho que ela representa, pelo que só muito a contragosto se separará dela. Preferiria sem dúvida não se ver no passo de ter que escolher entre a perda dos bens e a perda da sua vida. Todavia, não pode evitá-lo e tem de decidir-se: escolherá o que quiser mais, o que julga mais conveniente. Poderíamos dizer que é livre porque não pode evitar sê-lo, livre de escolher em circunstâncias que não escolheu sofrer.
(Fernando SAVATER - Ética para um jovem, 3ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1995, pp. 29-30)

1. Justifique se considera verdadeira/falsa cada uma das afirmações seguintes:

a) Fernando Savater defende que o Homem é livre, porque pode agir sem quaisquer condicionalismos
b) O autor do texto defende o determinismo
c) O autor do texto defende que o Homem está obrigado a ser livre, porque tem que escolher, apesar de não poder escolher tudo.
2. Concorda com a tese do autor? Argumente a favor da sua posição.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Filosofia Prática

«Considero que um tema ético importante é aquele que toda a pessoa que pensa um pouco tem de enfrentar. (...) Quais são as nossas responsabilidades pessoais para com os pobres? Teremos alguma justificação para tratar os animais como se não passassem de máquinas que produzem carne para a nossa alimentação? Será legítimo usarmos papel nao reciclado? E, em todo o caso, porque nos havemos de preocupar em agir de acordo com princípios morais? Outros problemas, como o aborto e a eutanásia, não representam felizmente decisões quotidianas que a maior parte de nós tenha de tomar; mas são problemas que podem surgir na nossa vida a qualquer momento. São temas de preocupação actual sobre os quais todas as pessoas que participam no processo de tomada de decisões da nossa soiedade precisam de reflectir.»


Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Filosofia Aberta, Lisboa, Setembro 2002

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ética de Kant


A moral Kantiana exclui a ideia de que possamos ser regidos se não por nós próprios. É a pessoa humana, ela própria, que é a medida e a fonte do dever. O homem é criador dos valores morais, dirige ele próprio a sua conduta.


Como para Rousseau, será para Kant a consciência a fonte dos valores. Mas não se trata de uma consciência instintiva e sentimental; a consciência moral para Kant é a própria Razão.



Assim, a moral de Kant é uma moral racional: a regra da moralidade é estabelecida pela razão – O Princípio do dever é a pura Razão. A regra da acção não é uma lei exterior a que o homem se submete, mas é uma lei que a razão, Actividade Legisladora, impõe à sensibilidade.



Nestas condições, o homem, no acto moral, é ao mesmo tempo, Legislador e Súbdito.


É uma ética formal, vazia de conteúdo, na medida em que:


1º - não estabelece nenhum bem ou fim que tenha que ser alcançado


2º - não nos diz o que temos que fazer, mas apenas como devemos actuar




O que interessa é a intenção, a coerência entre a acção e a lei, e não o fim.


A ética Kantiana possui uma Forma e não um conteúdo à essa forma necessária é a Universalidade: O racional é o Universal.




Kant critica as éticas tradicionais por serem:


a) empíricas – cujo conteúdo é extraído da experiência e portanto não permite leis universais.


b) os preceitos das éticas materiais são hipotéticos ou condicionais (meios para atingir um fim.


c) as éticas materiais são heterónomas – a lei moral é recebida, não radica na razão. A vontade é determinada a actuar deste ou daquele modo por desejo ou inclinação.




Na base da moral Kantiana está presente um determinado conceito de Homem.


- O homem é um ser que se auto-regula a si mesmo, que se auto-determina em liberdade.


- O homem possui neste sentido um poder absoluto – a sua razão autónoma e livre determina a sua própria lei.


- O homem é um destino, isto é, um ser que tem que fazer-se a si mesmo – Personalização – “ao homem cabe o destino moral da personalização.”


- Mas o homem, em virtude da sua constituição, participa também do mundo sensível, da animalidade.


- O homem é um ser dividido dentro de si próprio. Por um lado é um Ser Empírico, enquanto livre arbítrio que pode ou não agir segundo a representação da lei moral. Por outro lado é um Ser Inteligível, na medida em que leva em si um tipo de Causalidade Livre, que se impõe como exigência absoluta e incondicional.



O que é a Lei Moral?


A lei moral é para Kant, Universal, Necessária e «apriori», pois o seu fundamento não poderia ter sido tirado da experiência onde existem muitas inclinações e desejos contraditórios.A lei moral fundamenta-se na liberdade da Razão e tem origem na consciência moral, isto é, na razão autónoma. A lei moral é a lei que o homem enquanto ser racional e livre descobre em si mesmo como correspondendo à sua natureza. É uma lei intrínseca da razão. É a existência da moralidade no homem – A Personalidade – que o identifica com Deus: “Maximamente pessoa e ideal de existência personalizada, isto é, absolutamente causadora de si”.No homem a Lei Moral afirma-se como um Dever e assume a forma de Imperativo Categórico.DEVER – O que é então o dever para Kant?“A necessidade de uma acção por puro respeito à lei”“O valor moral de uma acção não radica pois em qualquer fim a atingir, mas apenas na máxima, no motivo que determina a sua realização, quando este motivo é o dever.Uma acção feita por dever tem o seu valor moral, não no fim que através dela se queira alcançar, mas na máxima pela qual ela resultou: não depende pois da realidade do objecto, mas apenas meramente do princípio do querer”.Para Kant “uma acção não é obrigatória porque é boa, é boa porque é obrigatória”.Para Kant o Dever é o Bem: A Boa Vontade é a Vontade de agir por Dever. A Lei Moral que se impõe por Dever assume a Forma de Imperativo Categórico.



O imperativo categórico, ou da moralidade, determina a acção independentemente de todo o fim a atingir e tem o seu fundamento apenas na consciência moral.O imperativo moral é categórico (e não hipotético ) sem qualquer condição. Respeita à forma e princípio donde resulta a acção (“o valor da acção moral ... vem do princípio da vontade que o produziu”) isto é a Intenção, se assim não fosse, as suas determinações ficariam sujeitas à possibilidade material de realizar a acção apreciando-lhe as consequências, então não seria categórico. Essa forma necessária é a Universalidade: O Racional é o Universal. A vontade não se determina só por leis, mas por fins, mas os fins subjectivos são relativos e só podem fundar imperativos hipotéticos. Só um fim em si pode fundar um imperativo categórico, só o homem é fim em si e tem valor absoluto, é pessoa; os objectos ou seres irracionais têm valor relativo, são coisas.Se o homem é fim em si, a sua vontade só pode estar ao serviço da razão; a vontade moral é, pois, autónoma, e há heteronomia sempre que o ser racional obedece a um móvel exterior à Razão.A lei moral é um imperativo e obriga o homem ao Dever.O próprio princípio da moral à limite práticoconstituído por impulsossensíveis que leva àfinitude de quem deverealizá-laA moralidade não é racionalmente necessária de um Ser Infinito que se identifica com a Razão, mas sim a racionalidade possível de um ser que tanto pode assumir como não assumir a Razão como guia de conduta.Aqui está a Raíz da exigência paradoxal de que o homem como sujeito de Liberdade valha como Númeno – mas afirmando-se como Númeno o homem não anula a sua natureza sensível – o Ser Fenómeno.A sua numenalidade mobiliza a sua fenomenalidade.O mundo supra-sensível que estabelece no acto da sua liberdade, é a forma da própria natureza sensível.Mas o sujeito moral enquanto Númeno não deixa se ser fenómeno – a sensibilidade, e como tal nunca se identifica com a Razão, a moralidade nunca é conformidade completa de vontade com lei moral, nunca é Santidade.

Utilitarismo



Teoria ética contemporânea defendida por Jeremy Bentham e Jonh Stuart Mill no século XIX e por R.M. Hare e Peter Singer no nosso tempo. Muito criticada mas muito influente nos nossos dias.Para estes utilitaristas, a intenção e os princípios de acção não interessam; o que é valorizado e tido em conta são as consequências, os efeitos da nossa acção. Aí reside o valor moral da nossa acção.



O princípio desta teoria é o da utilidade: ou o princípio da maior felicidade, já que é bem aquilo que trouxer a maior felicidade global.Ou seja, uma opção moral é melhor do que outra se, e só se, tiver melhores consequências ou resultados que outra. Mas melhores resultados para quem?Devemos promover o bem-estar e a felicidade de todos aqueles que são afectados pelas nossas acções (o maior número possível de pessoas), ao contrário do egoísmo ético (o meu bem-estar, a minha felicidade).Ou seja, uma boa acção é aquela que tiver mais possibilidades de trazer- a maior felicidade- ao maior número possível de pessoas.




UM EXEMPLO DA PROCURA DO MAIOR BEM PARA O MAIOR NÚMERO DE PESSOAS



O João, um cientista em viagem pela América do Sul, chega a uma pequena aldeia em que está prestes a ocorrer uma execução pública. O Pedro, um militar, reuniu vinte índios e prepara-se para ordenar a sua execução. Explica ao João que esses vinte índios não são criminosos: são pessoas inocentes escolhidas ao acaso entre os habitantes da aldeia, que tem protestado contra o Governo. O João mostra-se desconfortável perante uma tal injustiça. Ao aperceber-se do seu desconforto, o Pedro faz-lhe uma proposta: se o João estiver disposto a matar com as suas próprias mãos um dos índios, ele deixará os outros dezanove partir em liberdade. É claro que se o João recusar esta proposta, tudo decorrerá como estava previsto e os vinte índios serão executados.Deverá o João aceitar a proposta de Pedro?Qual a resposta do utilitarista? Se o João não aceitar a proposta, 20 pessoas morrerão, enquanto que se aceitar, só uma delas morrerá. Assim, vistas as coisas de uma perspectiva imparcial, aceitar a proposta tem melhores consequências do que não aceitá-la e por isso o João deve escolher um índio e matá-lo. Para reduzir tanto quanto possível as más consequências, deverá escolher um índio que seja mais velho ou que esteja já mais doente. É claro que matar uma pessoa irá provavelmente deixá-lo angustiado e com sentimentos de culpa, mas salvar dezanove vidas certamente compensará a morte provocada e o seu sofrimento.

Qual a resposta das éticas deontológicas como a de Kant? Para o deontologista, as consequências dos actos não são tudo o que devemos ter em conta quando agimos. Certos actos são intrinsecamente errados, independentemente das suas consequênciasPara os utilitaristas o que torna as nossas acções certas ou erradas é a conformidade ao princípio de utilidade (o maior bem para o maior número); falta-nos saber o que torna a nossa vida boa ou má.Fazer o que está certo é uma questão de produzir boas consequências e evitar más consequências.Mas em que consistem as boas consequências? O que torna a nossa vida boa ou má?Quando falam de boas consequências, os utilitaristas têm em mente a felicidade ou o bem-estar produzido pelas acções.Então em que consiste a felicidade ou o bem-estar?

Nos utilitaristas clássicos, a felicidade surge como um prazer. São, por isso, hedonistas: defendem não só que o bem-estar consiste apenas em experiência aprazíveis (bem como na ausência de experiências dolorosas), mas também que tais experiências são boas apenas pelo simples facto de serem aprazíveis, e não por outra razão qualquer.Segundo Bentham, cada um dos diversos prazeres e dores da vida da pessoa tem um certo valor, que em última análise é determinado apenas por duas coisas:- a sua duração e- a sua intensidade.Um prazer é tanto melhor quanto maiores forem a sua intensidade e a sua duração.

Assim, os utilitaristas depararam-se com o problema de calcular ou medir a quantidade de bem que determinada acção provocaria, neste caso, a intensidade e a duração de um prazer é o que norteia a nossa acção.Exemplo: O prazer de comer chocolate durante 10 minutos, por exemplo, é em geral, melhor do que o prazer de comer pão durante dois minutos.OuAs dores serão tanto piores quanto maior for a sua intensidade e a sua duração.Exemplo: Estar no dentista durante uma hora não é tão mau como soferer com dor de dentes durante várias semanas.Assim, para promovermos o nosso bem-estar temos de fazer bem as contas de modo a obter um saldo tão favorável quanto possível.


Exemplo: Leva-nos a privarmo-nos de certos prazeres como comer chocolate de forma a evitar sofrimento futuro (como ter dor de dentes) ou então leva-nos a sujeitarmo-nos a um certo sofrimento como ir ao dentista para evitar um certo sofrimento ainda maior (como continuar indefinidamente com dor de dentes). Bentham tem, então, uma visão puramente quantitativa do bem-estar. Pressupõe que os prazeres e as dores são mensuráveis: determinamos a intensidade e a duração de um prazer (ou dor), multiplicamos uma pela outra e obtemos o valor desse prazer; depois fazemos o mesmo a outro prazer e por fim podemos compará-los para ver qual tem mais valor e para agir em conformidade com o resultado.Por exemplo:Definimos uma escala de valores como de 0 a 10 e classificamos determinado prazer quanto- à sua intensidade (5) (5)- à sua duração (5) (4)= (25) ( 20)É este o cálculo da felicidade encontrado por Bentham.A melhor vida é aquela em que, considerados todos os prazeres e todas as dores que a constituem, apresenta o saldo mais positivo. Além da intensidade e da duração, nada mais faz um prazer ser intrinsecamente melhor do que outro.Esta perspectiva de Bentham foi criticado por alguns atores que consideraram que este tipo de hedonismo conduziria a um sensualismo, à adopção de um modo de vida luxurioso. Por isso, Stuart Mill propõe outro tipo de hedonismo.


Segundo Mill, alguns tipos de prazeres são, em virtude da sua natureza, intrinsecamente superiores a outros. Distingue entre



- prazeres superiores



- prazeres inferiores



e para vivermos melhor devemos dar uma forte preferência aos prazeres superiores, recusando-nos a trocá-los por uma quantidade idêntica ou mesmo maior de prazeres inferiores.Mill identifica os prazeres inferiores com os prazeres corporais e os prazeres superiores com os prazeres que resultam do exercício das nossas capacidades intelectuais, alegando que esta identificação resulta do veredicto daqueles que conheceram e avaliaram ambos os tipos de prazeres.


Robert Nozick criticou qualquer tipo de hedonismo utilitarista, criando o argumento da máquina de experiência (espécie de máquina virtual que substitui toda a nossa vida, proporcionando-nos apenas as experiências que queremos.Se o hedonismo fosse levado até às últimas consequências, deveríamos ligar-nos à máquina de experiências sem qualquer hesitação, pois assim a nossa vida seria muito mais rica em prazeres. Com base nesta crítica, o utilitarismo contemporâneo evoluiu, com Peter Singer e R.M.Hare, para um utilitarismo de preferências e não hedonista. Pressupõe que o bem-estar a ser promovido consiste, não em experiências aprazíveis, mas na satisfação de desejos ou preferências.